Tem aquele desenho do homem de picareta que desiste a um palmo dos diamantes. Larga a ferramenta, vira as costas, vai embora. E os diamantes ali, do outro lado de uma parede fina, esperando uma última pancada que nunca veio. O que será que parou ele? O que faltou? Será que foi só não saber onde estava?
Não precisa viver muito pra já ter se sentido assim. Tão perto, ao mesmo tempo tão longe, e de repente se ver andando em retirada. A retirada nem sempre tem cara de desistência. Às vezes é cansaço, às vezes é uma voz dizendo que dessa vez foi burrice ter tentado. Seja qual for o nome, o movimento é o mesmo. A gente larga a picareta a um palmo.
Quando pensava nessa imagem, me veio junto a imagem do louco no tarô. O homem desistindo dos diamantes poderia ser considerado o inverso do louco, aquele que dá o passo pro abismo sem saber o que tem embaixo. Mas eu desconfio que não é o inverso, é só o antes. O louco provavelmente já foi muitas vezes o homem da picareta. Já largou a ferramenta, já virou as costas, já foi embora. Várias vezes. E foi exatamente aí que entendeu o que parou ele.
