Começar é só metade do problema. A outra metade é o que sai quando você começa.
Eu escrevi uns dias atrás sobre a folha em branco, sobre como eu acredito que o vazio é potencial. O que eu deixei de dizer é que tem um segundo desafio logo após o primeiro.
Você finalmente começa, e o que sai é ruim. Não aquele ruim de “depois eu ajeito”. Só ruim mesmo. O resultado não se parece com o que você imaginou. A frase soa estranha. O desenho sai torto. Não é profissional. E bem ali, naquele exato segundo, a velha voz aparece e diz “desiste, você não é bom nisso”.
Por boa parte da minha vida eu escutei essa voz. Ela é esperta. Se veste de racionalidade e bom gosto. De “um padrão alto pra mim mesmo”. Mas não é bom gosto. É só medo disfarçado. O bom gosto te faz querer melhorar, explorar, expandir. O medo te faz querer parar, desistir. Para o desatento parece a mesma coisa, e é por isso que a voz se safa por tanto tempo.
Você não conquista o direito de fazer coisas boas primeiro. Você faz uma pilha de coisas ruins, às vezes em público, e as boas nascem daí. Não há atalho. O trabalho ruim não é o preço que você paga antes do trabalho de verdade. O trabalho ruim é o trabalho de verdade. É o aprendizado que ninguém te dá um certificado por ter feito.
Colocar esse trabalho ruim onde as pessoas podem ver piora tudo, a voz do medo fala mais alto, o corpo sente mais. Porém é esse o ponto. Não há como ser corajoso sem sentir medo. E não há como vencer o medo sem ser intencional.