A metáfora do jardim vem de uma abordagem chamada Terapia de Aceitação e Compromisso, ou ACT (a sigla é em inglês, Acceptance and Commitment Therapy). Mas antes de chegar no jardim, deixa eu explicar a ideia geral da ACT.
O que é a ACT
A maioria de nós cresceu acreditando que primeiro a gente conserta o que está ruim, e só depois começa a viver. “Primeiro a obrigação, depois a diversão”. “Quando a ansiedade passar”. “Quando eu parar de me sentir assim”. “Quando eu tiver tempo”. “Quando o pagamento cair”.
A ACT sugere uma nova forma de encarar isso. O objetivo dela não é eliminar a dor, os desafios ou os pensamentos ruins. Porque isso é simplesmente parte inevitável da condição humana. O objetivo da ACT é te ensinar a viver uma vida com sentido apesar das dificuldades.
A metáfora do jardim
Imagina que a sua vida é um jardim. Ele é composto de um pedaço de chão e ervas daninhas. As ervas são os pensamentos difíceis, os medos, a ansiedade, as coisas que você queria que não estivessem ali. Tem dois jeitos de cuidar deste jardim.
O primeiro é o que quase todo mundo faz. Você passa o dia inteiro de joelhos na terra, arrancando as ervas daninhas. Arranca uma, aparece outra. Arranca aquela, nasce mais três do lado. Você se convence de que, quando o último mato sumir, aí sim você vai plantar alguma coisa bonita. Mas o mato sempre volta. Sempre. E enquanto você só arranca, o jardim continua marrom, vazio, sem cor. Você termina o dia exausto, com as mãos sujas, e sem nada plantado. A vida inteira virou manutenção de um terreno que nunca floresce nem dá os frutos que você almeja.
O segundo jeito é estranho no começo. Você para de tentar limpar tudo. As ervas continuam lá, você nem finge que elas sumiram. Mas você decide que a sua energia vai pro outro lado. Em vez de arrancar, você planta. O que você quer ver crescer? Família, trabalho, saúde, amizade, fé, o que mais? Você põe essas sementes na terra e rega todo dia. Pequenas ações, mesmo nos dias em que o mato está alto ou que você está exausto. E aí acontece uma coisa. Com o tempo o jardim fica tão cheio de plantas e flores que as ervas daninhas deixam de ser a atração principal do seu jardim.
Essa é a diferença entre tentar controlar e viver. A ACT chama isso de ação guiada por valores.
O que o Buda diz
Hoje, quando pesquisava sobre essa metáfora, a primeira coisa que me veio na cabeça não foi psicologia, mas sim o budismo. Tem uma frase atribuída ao Buda que diz que a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
Nessa visão, a dor seria as ervas daninhas nascendo, é a vida acontecendo. O sofrimento é a gente de joelhos, ano após ano, tentando controlar as coisas. O budismo diz que a raiz do sofrimento está no apego e na resistência. A gente se agarra ao jeito que queria que as coisas fossem, e se recusa a aceitar o jeito que elas são.
Aceitação no zen nunca foi desistência. Não é dar as costas e deixar o jardim virar um terreno baldio. É parar de gastar a vida lutando contra o que você não controla pra poder cuidar, com atenção e presença, do que você controla. Soltar o que não é seu pra segurar com firmeza o que é. Desapego não é não se importar. É se importar com as coisas certas.