Algumas coisas não se traduzem. Não porque não existam palavras equivalentes, mas porque elas não entregam o mesmo sentido.
Quando comecei a trabalhar na versão bilíngue do site, tudo parecia simples. Reflexões, ensaios pessoais, observações do dia a dia, descrição de obras. Escrevo algo numa língua, peço uma tradução automática ao meu agente de IA, faço alguns ajustes lá e cá, e o sentido sobrevive.
O problema começou quando comecei a escrever textos técnicos. Tenta traduzir “deploy” pro português. Implantação? Ninguém fala assim. O coloquialismo brasileiro já tinha resolvido esse problema muito antes de mim. A gente simplesmente não traduz. Qualquer desenvolvedor vai dizer “vou fazer o deploy”, ou pior, “vou deployar”, sem pestanejar, o substantivo inglês entra na frase portuguesa como se fosse de casa. Se a gente traduzisse para implantação, isso acabaria matando o sentido da frase. Ninguém entenderia.
Mas o desafio não é só o vocabulário. Faz tanto tempo que eu só penso sobre assuntos técnicos em inglês que os conceitos em português não existem mais dentro da minha cabeça. Alguns nunca nem existiram.
O que não esperava com essa experiência era readotar o português como minha língua primária para textos. E isso aconteceu depois que eu percebi que se eu escrevo a versão em português primeiro, o resultado da tradução quase não precisa de ajustes. O contrário já não é verdade. A tradução pro português é entendível, mas soa estranha, quase que como se fosse gerada por máquina, porque foi mesmo.