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Cães e gatos

Cães e gatos não se dão bem. É o que a sabedoria popular nos diz, e a gente foi treinado nessa narrativa de mil formas. Em filmes, desenhos, livros e na experiência de todo dia. E não para por aí. Hoje é fácil perceber que também existem dois tipos de pessoa, as de gato e as de cachorro. E essas, dizem, também não costumam se dar bem.

Eu sou dos de cachorro. Minha noiva é das de gato (não só na aparência, mas na personalidade). Então deixa eu te contar como é morar bem em cima dessa fronteira.

Dois jeitos de estar no mundo

Cachorro é barulhento. É bruto. Chega cheirando, lambendo, esbarrando, sem pedir licença. Aguenta tranco, aguenta dor, e no minuto seguinte já esqueceu tudo e quer brincar de novo. Pra um cachorro quase tudo se resolve no corpo e na insistência. E tem a história do líder. Ou você lidera ou te lideram, não tem muito meio termo.

Gato é outra coisa. Gato é fino. Sente o toque diferente, sente o barulho diferente, sente a mudança no ar antes de você sentir. Um movimento brusco, um móvel fora do lugar, uma voz mais alta, e ele já se recolheu, já se sentiu ameaçado, já sumiu pra debaixo da cama. Não é frescura. É que o mundo chega mais forte nele. O que pra um cachorro é só um susto, pra um gato é uma invasão. E enquanto o cachorro elege um líder pro grupo, cada gato acha que é o único líder que existe. O que torna a relação com eles tão interessante.

Nenhum dos dois está errado. São só jeitos diferentes de se proteger.

A casa cheia de gatas

Eu adotei dois cachorros há alguns anos. Ao longo da convivência a gente vai aprendendo que concessões precisam ser feitas pra relação não virar uma guerra constante, porque nós, os cachorros, não gostamos de ceder. Aprendi a tirar da vista deles o que eles não têm maturidade pra usar (pra um são pedras, pro outro são sacos de lixo), aprendi a dar a eles o que precisam pra estar bem, e aprendi a desapegar da bagunça, dos pelos na roupa e do escândalo que eles fazem toda vez que o caminhão do lixo passa. Em troca, eles aprenderam a não cagar dentro de casa, a não roubar a minha comida quando deixo num lugar fácil, e a me ouvir quando digo não. Afinal, eu sou o líder. Ou gosto de pensar que sou. É uma relação de troca e de confiança, construída no tempo, com uns grunhidos dos dois lados. Mas no fim a gente se entende e gosta de ficar junto o tempo todo.

Há alguns meses minha noiva veio morar comigo. E trouxe as duas gatas dela, totalmente apegadas a ela, e ela a elas. Eu nunca tinha cuidado de gato na vida. Não tenho nada contra, cheguei a cogitar adotar um por anos, mas acabei ficando com os cachorros primeiro e não quis mais obrigação depois disso.

De uma hora pra outra eu, o cachorro, virei minoria dentro de casa. E quando você mora com gato a casa inteira muda. Tem brinquedo pra gato, caixa pra gato, livro pra gato, fonte pra gato, esconderijo pra gato e gato pra gato. Mandar fazer uma camiseta com a foto da bichana pra distribuir entre parentes e amigos parece ser só questão de tempo, eles dizem.

Convivendo

No começo havia separação. O espaço dos gatos e o espaço dos cachorros. As coisas de cada grupo, os momentos de cada grupo. Depois a barreira foi caindo. A gente foi aprendendo a olhar pro problema e pensar em solução, em vez de um evitar o outro.

Os gatos têm unha afiada e atacam rápido quando se sentem ameaçados. Era a minha maior preocupação no início. Um ataque das gatas podia gerar retaliação dos cachorros, e isso podia ser catastrófico. Mas o cachorro tem uma curiosidade e uma insistência infinita. Quer cheirar, lamber, interagir com os novos integrantes da casa, e não desiste apesar dos arranhões e das ameaças. O que irrita os gatos pra caramba. Coube ao cachorro entender que o gato não gosta do mesmo nível de contato que ele. Que dá pra querer bem sem invadir. Que dosar é diferente pra cada um, e que se colocar no lugar do outro não é perder espaço, é caber melhor nele.

Nunca houve grandes impasses. Houve, sim, alguns momentos de tensão. Hoje a convivência anda mais tranquila. Cada um ainda no seu canto, com pouca interação. Mas nenhum grupo se limita a uma parte da casa. Existem ritmos diferentes debaixo do mesmo teto. O que não existe mais é território exclusivo.

Construindo

Eu, particularmente, adoraria ver os cachorros brincando com as gatas. Não sei se vai acontecer, mas as coisas parecem caminhar pra lá. De qualquer forma, nós, os cachorros, já aprendemos muita coisa com as gatas que se mudaram pro nosso lote e fizeram dele uma casa. Aprendemos a ser mais inteligentes, mais delicados e mais conscientes do espaço do outro.

E talvez seja só disso que se trate, no fim. Não de transformar gato em cachorro, nem cachorro em gato. De aprender a língua um do outro o suficiente pra construir, devagar, um lugar onde os dois caibam inteiros.